da boniteza finita do fim dos dias

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Relato pós-pseudo-apocalipse. Registro um. 24 de dezembro de 2012. 

Eis que o mundo ia acabar dia 21. E, muito obviamente, não acabou. É a mesma história novamente, repintada, recontada: o humano buscando maneiras de justificar ou mistificar as coisas sobre as quais não temos controle algum. E bem, sobre isso tudo já foi falado. 

No último dia do mundo, eu estava passeando por uma crônica de abertura de um livro do Bukowski. Mas, passeando mesmo, arrastando os pés, chutando paralelepípedos, estragando meus tênis herdados de um último relacionamento e tudo o mais. 

Andava tanto na crônica do Buk que, enquanto fazia as obrigações matinais, serviços postais e etc, resplandece na porta a Cass – nesse caso, a minha Cass. Para os desconhecedores, Cass é A mulher mais linda da cidade. E, nesse ponto não-crítico é que faço uma ressalva: sou síntese de irrealidade. A irrealidade me apetece de tal maneira que fantasio até minhas realidades. 

Assim que ela entrou na agência dos Correios, eu perdi a capacidade de pensar objetivamente e a irrealidade tomou conta. Ela já tinha lugar, voz e texto nas minhas ilusões. A pele branca, branca e que devia cortar como papel. Os cabelos loiros, cacheados, presos em cima e caindo pelos ombros. Cass olhava todo mundo, menos eu. Sua cicatriz no pescoço, indelével, superada, intransponível, tinha o efeito plástico totalmente oposto.. tornava-a mais linda. 

As senhas de atendimento pululavam no display, cada vez mais perto do número da minha ficha. E Cass impassível. Eu a queria, sempre quis, ali mesmo que fosse.

E quem esperava um desenvolvimento de personagem mais profundo, não encontrou. Seja por preguiça ou conveniência. Distraí-me por exatos quinze segundos. E não mais a vi. Ainda voltei na agência nos dias seguintes, praticamente no mesmo horário. Mesmo assim, nada. 

No último dia do mundo, perto da meia-noite, quando todos os crentes e descrentes já tinham certeza que o mundo seguiria – e, muito provavelmente, do mesmo jeito -, pego o celular, releio algumas mensagens de alguns meses atrás e analiso as minhas últimas semanas. 

E assim desconfiguro as teorias - inclusive todas as minhas - e discorro. O mundo pode não ter acabado efetivamente e as crianças podem voltar a correr despreocupadamente com seus picolés e seus cachorros, a terceira idade pode jogar seu xadrez na praça, minha avó pode ir ao bingo, os engravatados podem refazer o nó da gravata e arrumar o colarinho e o que quer que seja. Mas, bem sei: algum mundo, lá dentro de mim, se foi. Como a explosão de uma supernova que, mesmo não existindo mais há eras e eras, ainda espalha a luz maravilhosa de sua morte pelo Universo.


Sobre o autor

Kauê Vargas Sitó, tenho 22 anos e sou natural de Alegrete-RS. Sou escritor, compositor, blogueiro, músico, pseuudoprogramador e entusiasta da web. Atualmente moro em Porto Alegre e estudo na UFRGS.

1 comentários:

Anônimo disse...

Lindo, como sempre.