A banca

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17:42

“E, se você olhar longamente para 
um abismo, o abismo também olha 
para dentro de você.” 
(Friedrich Nietzsche)


Acordei dois minutos antes dos pássaros matutinos da redondeza. A tempestade amainara durante a madrugada deixando, ainda assim, a rua encharcada. Debrucei-me na janela e, sem dificuldade, divisei a água da chuva na copa dos jacarandás da frente do meu prédio. Alguns tímidos raios de sol reluziam nas pétalas de uns mimos-de-vênus e, diante de tal visão, eu me sentia significado conquanto insignificante. 

Banhei-me de modo ligeiro e despreocupado e vesti-me cheio de mim, enquanto as correntes de ar frio irrompiam pimponas pelo apartamento. 

Quando ganhei a Andradas, a 56 passos da Borges de Medeiros deparei com tal banquinha que achei deveras agradável. Banquinha daquelas que vendem bugigangas no calçadão. Nunca a vira antes. Era uma coisinha mínima, uma madeira grossa e única, maciça, de uns 30 cm de altura por 60 cm de largura. Pouco menos de 1 metro de comprimento. Enfeitada com uma toalha verde musgo com babados de crochê branco. Um cartaz de papelão ostentava, com caligrafia desregrada - porém nítida -, a seguinte inscrição: “Livro-te da tua ignorância”. Achei divertido. Achei criativo, ri comigo mesmo, apressando o passo para vencer o atraso. 

Nas semanas subsequentes, em todas as manhãs, tive a impressão de que a banca movia-se, e se situava cada vez mais perto do meu endereço. Enfim, essas banquinhas, de toda forma, são comércio itinerante, cada dia encontro-as em uma praça diferente. Até mesmo o fato de situar-se solitária, sem vendedor, era despercebido. Até mesmo o fato da dificuldade de transportar para lá e para cá tal peça de madeira era compreensível, embora fosse, como já mencionei, madeira maciça, coisa pesada. 

Certa vez, numa das raras vezes que ousei levar meu nariz para passear à noite naquele inverno, deparei-me com tal banca na calçada do meu prédio, sem dono e sem clientela, como todas as vezes que a encontrei. Jazia órfã na minha calçada, sempre aprumada e bonitinha, vestida de verde musgo. Ignorei-a pois me faltava arroz na despensa e precisava ir ao mercado. 

Por sorte minha janela possibilitava-me uma visão privilegiada daquela parte da calçada onde se encontrava a banquinha e, após o jantar, assisti o sono do objeto, sozinho e esquecido na sarjeta; o papelão escancarando “Livro-te da tua ignorância”. A luz apagada no apartamento, para evitar o reflexo no vidro que prejudicava a minha visão do mundo exterior, somou-se ao meu cansaço e ambos nocautearam-me após quase três horas de vigília. Mas, quem a teria abandonado? Quem a moveria todo santo dia? Empatizei com a solidão da banquinha em sonho. Estava eu também só. 

Na manhã seguinte senti que estaria atrasado, dado o bem estar e o descanso que o sono me proporcionou, mas acordei muito mais cedo do que de costume. Precisava levantar, pagar as contas, precisava ir à feira, então trabalhar, então almoçar, então respirar. 

Ao abrir a porta, tateando o meu bolso à procura das chaves, exatamente no meu tapete de entrada, na soleira da minha porta, encontrava-se a banquinha encobrindo o usual “Bem vindo” e substituindo-o por um expressivo “Livro-te da tua ignorância” em papelão. Àquela altura aquilo tudo já me impacientara, de verdade. Algum desocupado, sabendo da minha atribulada rotina, a teria deixado ali, folgueando, para atrapalhar-me e atrasar-me. Respondi ironicamente, com um vigor quase violento, à explícita provocação: 

- Me livra da minha ignorância? Então já é hora! Mexa-se, amiguinha envernizada, faz tua mágica! Livra-me da minha ignorância! 

Ri maldosamente enquanto desviava do objeto, dei as costas, um passo em direção ao elevador e ouvi um estampido vindo do lugar onde – julguei eu – estava a banquinha. Antes que pudesse me virar para verificar o que ocorrera, senti uma pancada surda, descomunalmente forte na cabeça. A visão enegreceu-se, desfaleci desamparado. 

Acordei, aproximadamente, um dia após o fato. A boca com gosto de ferro, como se tivesse degustado alumínio derretido por horas a fio. Senti vontade de vomitar tal era o desnorteio. Pus-me de pé com muita dificuldade, a dor era lancinante, desumana. Minhas articulações rangiam, meus braços reluziam prateados, brilhando um ferro bonito, assim como toda a constituição nova dos meus pés, joelhos, coxas e corpo inteiro. Parafusos, roldanas e engrenagens garantiam os movimentos ridículos que imaginava. Pude ouvir no peito algum tiquetaquear que nunca percebera, algum movimento moto-perpétuo girava uma pequena engrenagenzinha que bombeava fluido para todos os componentes do meu corpo. As antigas preocupações haviam se transformado também, em coisa irrelevante. Mas a dor: lancinante! 

Ocorrera-me a lembrança de chorar conquanto não achasse motivo para tal e para tanto. Mesmo assim, pequenas gotículas de óleo vazaram fúnebres e solitárias dos meus olhos por toda a extensão do meu rosto. 

Sobre o autor

Kauê Vargas Sitó, tenho 22 anos e sou natural de Alegrete-RS. Sou escritor, compositor, blogueiro, músico, pseuudoprogramador e entusiasta da web. Atualmente moro em Porto Alegre e estudo na UFRGS.

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