anti-existência

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Dizia que não havia nada. Dizia que não havia dor. Mas dor havia, havia nenhuma dor não fosse a dor que ali morava. O inconsciente coletivo enlutado e os pêsames entrelinhados. Não era de se saber, mas embora sua personagem estivesse aliviada, sua personalidade instintiva definhava num proselitismo semântico, buscando dar significado à cada viva palavra que lhe atravessava a mente. Daniel não precisava levantar daquela cama assim como Daniel não precisaria existir, mas ele era bom em levantar das camas, e se esforçava em existir. Uma existência parcelável ou uma anti-existência, de fato, nem todos são seres existentes natos, acreditem.

Daniel ignorava, com certa relutância inconsciente, o fato de estar em direção ao último adeus ao seu céu-inferno personificado. Fingia que as nuvens pesadas eram mais dignas de atenção. Mais tarde iria ao analista. “Odeio análise”, repetia sempre ao profissional do ramo. E da mesma forma, odiava fiscalização. Odiava sensacionalismo. Humoristas. E gatos.

Agora, Deus do seu mundo e de todos os mundos, Daniel já desprezava as flores bonitas do jardim da casa. Precisava plantar e levantar de outras camas, em outros mundos que não o tivessem, com outros ares não-respirados. Um raio atravessou o céu, já era hora de partir, já passara da hora de plenamente existir. O cigarro queimou seus dedos e ele de pronto deu-se conta que ainda haveria de existir muita dor no mundo pra se sentir.

Sobre o autor

Kauê Vargas Sitó, tenho 22 anos e sou natural de Alegrete-RS. Sou escritor, compositor, blogueiro, músico, pseuudoprogramador e entusiasta da web. Atualmente moro em Porto Alegre e estudo na UFRGS.

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