maria

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Vinha do apartamento dela inebriado, embriagado, extasiado, como acontecia toda quarta-feira. Mas essa quarta-feira foi mais. Foi muito. E foi bom. Atravessava as avenidas ignorando os carros. Caminhava pelos meios-fios assoviando qualquer modinha sem nexo, emendando de quando em vez El día que me quieras do Gardel. Mas a música era o que menos importava, era um pretexto e uma bobagem isso de modinha, lá bem é verdade. Era o percorrer o caminho de volta para casa sem se lembrar qual caminho percorrido que dava o tom da distração. Desejava ¡buenas noches! para os mendigos, sem considerar que uma boa noite para quem dorme ao relento é não morrer durante o sono.

Quando entrei em casa, deparei-me com uma cena por demais triste. Minha mulher de joelhos na minha cadeira de trabalho, seus cotovelos apoiados na mesa de cedro, mesa essa de igual feitio da cadeira. As mãos afastando os cabelos do seu rosto, forçando-os para trás, deixando transparecer um semblante desolado, os olhos lacrimosos e o negro do delineador escorrendo-lhe pela face. Os olhos vidrados em algumas folhas de papel em cima da mesa. Minha máquina de escrever jogada no canto da sala e, além das folhas às quais Joana se detinha, uma boa parte do meu trabalho de semanas espalhado pela sala, mais de trezentas folhas entre contos e poesias.

Sem entender nada interpelei:

- Ficou louca, Joana? Olha minhas coisas! Meu trabalho inteiro! Minha maquininha! Vai custar o olho da cara pra consertar – isso se tiver conserto! Meu Deus!

- Onde tu estavas? Onde? Me responde! 

- Ora... Onde eu vou toda quarta-feira. No Bar. Com o Rogério. Hoje é dia de Inter.

- Que Inter? O jogo acabou há horas.

- Pois é.. e-estamos classificados. Fiquei comemorando. O dono do bar, lembra? É colorado também. Deu rodada extra pra todo mundo. De graça! Eu tinha que ficar, né, Joana.

- Deixa disso, Geraldo. Eu sei que é mentira. Quem é essa mulher pra quem tanto tu escreves? Essa que tu dedica páginas e páginas em espanhol? Me diz.

- Ora... Eu sou ficcionista, Joana. Eu escrevo ficção. De onde tu tirou essa ideia? Tu é meu amorzinho, ora. Vem cá, deixa disso.

- Sou mesmo? Jura pra mim? Eu fico tão sozinha aqui. Me desculpa, Geraldo. Eu sempre faço das minhas.

- Claro que juro. Nada dessa Maria é verdad...

- MARIA? Quê Maria, Geraldo? QUÊ MARIA?

Virei as costas, saí pela porta. "Volta aqui, Geraldo!". Fechei-a rapidamente a tempo de ouvir algum objeto de vidro estilhaçando-se na direção onde eu estava há poucos segundos atrás. Respirei fundo. A lua estava bonita.

Sobre o autor

Kauê Vargas Sitó, tenho 22 anos e sou natural de Alegrete-RS. Sou escritor, compositor, blogueiro, músico, pseuudoprogramador e entusiasta da web. Atualmente moro em Porto Alegre e estudo na UFRGS.

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