o frio

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Olho para a pilha de livros na cabeceira. O copo de uísque que me ajuda a espantar o frio. Meus óculos e um molho de chaves no chão. E eu analiso piegasmente as últimas horas da minha vida. Nasci e vivi durante seis meses.

Deitamos um silêncio mortificante, ela no meu peito, e eu afagando seu rosto. Como quem diz “não saia nunca mais daqui”. Mas eu partiria. E ela também. O álcool desce queimando. Eu chorei. Ela chorou. Eu afoguei palavras. Aposto que ela também. E mais silêncio, mais frio. Eu falei tanto com o olhar, esperando que ela me entendesse. Os olhos dela respondiam desconsolados. E eu também.

Perto das oito horas da noite atravessaríamos grandes avenidas para, enfim, deixá-la em casa. Estava frio. Um frio terrível, que não se equiparava com o frio que se instaurava em mim. O Radiohead no alto falante proclama “for a minute there, I lost myself, I lost myself”. Eu realmente me perdi. Nas palavras. Nos sentimentos. Nos meus cobertores. No frio. E em mim mesmo.

Caminhamos lado a lado durante alguns minutos. Uma palavra sequer. Nada senão o frio. E tanto frio. Eu a via com olhar piedoso, o rosto pálido, choroso, os dentes batendo de frio. Frio. Frio. Abracei-a. Ainda assim estava frio. Mas era um frio mais familiar. Menos solidão, conquanto fosse.

Conversamos sobre qualquer coisa que não fosse as horas passadas. E ríamos um riso bobo. Cinquenta filmes das nossas vidas passaram pela minha cabeça. E em todos eu estragava tudo. Eu segurei-a mais perto por causa do frio e por causa de mim mesmo. E um vento! E ríamos um riso bobo. Nem nós mesmos acreditávamos no nosso riso. Ela me olhou e disse: “Na Ana Terra que fala que noites assim são noites dos mortos”. Eu respondi: “E deve ser mesmo”. Quem morria era eu.

Sobre o autor

Kauê Vargas Sitó, tenho 22 anos e sou natural de Alegrete-RS. Sou escritor, compositor, blogueiro, músico, pseuudoprogramador e entusiasta da web. Atualmente moro em Porto Alegre e estudo na UFRGS.

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