o rio

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Um grupo de gaivotas batendo em revoada. O horizonte em todos nós. Um pouco de luz solar apareceu iluminando apenas uma limitadíssima faixa do rio, e transpareceu um espelho dourado de águas, num espetáculo muito digno.

O rio é calmo e, pela sua condição, não se pode divisar simulacros no seu leito. Mas o vento fez o rio revolto, e ele responde prontamente, sacudindo com violência magistral seus barcos e jogando suas águas contra as encostas. Os barcos, por sua vez, respondem esporadicamente com buzinas infernais, avisando-o que a placidez deve ser respeitada e restaurada. E ele obedece.

Embora seja obediente, o rio é, por inerência, fado ou sorte, suscetível às coisas externas e não existe por si só e só em si. Existe nas suas margens e nos homens que as povoam. Existe nos pássaros que o sobrevoam visando avidamente o escasso alimento. Existe nos halos de sol que, por entre as nuvens, se deixam brincar. Existe no olho vívido da pequena criança que, guiada pela indicação de seu pai, enxerga seu leito e interpela "olha, paizinho, aquele barco grande! Por que sai água de dentro dele?"

No outro lado do rio há fumaça das fábricas e desse lado há algodão doce com máscaras de super-heróis. As lágrimas do rio também são doces. São também lágrimas do céu. São lágrimas purificadas pelas suas naturezas próprias: as de serem reflexo gritante de alma impura. São quereres e vontades mortas e impotentes nas suas impossibilidades de existirem.

O rio não dorme. Respira o ar dos homens e beija seu céu e suas terras em um movimento ora interpolador, ora unívoco.

A vida do rio é um encontro e desencontro suspenso na eternidade, e à mercê dela. Tantos barcos deixam seus portos e tantos outros chegam até eles. E isso, porém, não desmistifica seu papel de purificador e senhor de vida. E de salvador de tantas almas que não a sua. Trilhador de tantos caminhos que subjazem à sua vontade, ao seu alcance, ao seu poder e violência.

Uma violência lenta e plácida, corrosiva, simbolista e velada. Ainda assim, tantas almas atravessam as ruas de sua cidade para pousarem amores e olhares sob suas águas. E o rio é impassível. E arrasta a tudo e a todos. "E a água passa por cima de tudo, não é mesmo?", diz um tripulante do barco que acabou de aportar na margem de cá.

Embora o rio não durma a noite nele é instigadora e perturbadora. É surrealista. E ele arrasta almas para sua escuridão; para sua eternidade fragilizada e fragilizadora.

De repente, como sonho que se conta, as lágrimas do céu valsaram com as lágrimas do rio e purificaram-se e o rio seguiu seu curso. Outro barco deixou a costa e atravessou o espelho dourado de luz que o feixe de sol produzira na vida do rio. Pela primeira vez suas águas, seus gemidos, sorrisos e amores foram cirurgicamente divisados e divididos. Ao longe, uma modinha argentina destoava da nebulosidade, ensolarando os corações dos que observavam o rio. Um grupo de gaivotas batendo em revoada. O horizonte em si mesmo. A buzina homérica da embarcação.

Sobre o autor

Kauê Vargas Sitó, tenho 22 anos e sou natural de Alegrete-RS. Sou escritor, compositor, blogueiro, músico, pseuudoprogramador e entusiasta da web. Atualmente moro em Porto Alegre e estudo na UFRGS.

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