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A utopia precedeu a necessidade, quando o vazio ainda era passado e o passado era vazio. Não houve primeiro o verbo, ou a luz, ou o som. O som e a luz eram secos de frequência, o verbo seco de morfemas. Houve a utopia, a necessidade e a insatisfação perene que rege todo átomo e os elementares fótons e glúons. Cada segundo existe pela empoeirada insatisfação, provavelmente, de algum povo mesopotâmico, que antes da sua necessidade de contar o tempo, acreditou que um porvir mais aceitável residiria, essencialmente, em uma maneira de explicar o apodrecer da matéria orgânica. E cada segundo existe, nesse contexto de análise, pela insatisfação do ponteiro do relógio, o qual é impelido para o seu porvir utópico pelo peso do pêndulo, pela energia potencial, trazendo a cada período uma nova possibilidade. O pêndulo, seu comprimento e a gravidade formam a tríade das boas-novas, anunciando a cada segundo um novo segundo. Fundem-se agindo como materialização do estranhamento ou, ainda, metamorfoseando-se nas crendices da hora cabal - a meia-noite -, o início e o fim do que começa e deixa de existir em uníssono: a hora da transcendência. E com o período único (e coletivo) do pêndulo a possibilidade de que algo pode ser diferente e possível. E assim a utopia. E assim a necessidade. E assim o porvir.

Sobre o autor

Kauê Vargas Sitó, tenho 22 anos e sou natural de Alegrete-RS. Sou escritor, compositor, blogueiro, músico, pseuudoprogramador e entusiasta da web. Atualmente moro em Porto Alegre e estudo na UFRGS.

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